A década era a de 70. Anos de chumbo e - muitos se esquecem - de crescimento. Houve investimentos na infraestrutura do Brasil. O dinheiro do exterior, os militares fizeram bem em aplicá-lo em projetos que serviram de base para que hoje o Brasil deixe a Inglaterra para trás e se torne a sexta economia do mundo. Antes de mais nada, é certo que alguns projetos deveriam ter sido discutidos com mais vagar, as decisões eram tomadas nos gabinetes dos militares ou dos burocratas convocados para servir ao regime, não havia legitimidade a não ser a que foi dada pela classe média assustada. O país cresceu, nos anos pesados (esse foi um dos pontos sabiamente equacionados por Tancredo Neves assim que se viu eleito), com taxas de 10% ao ano. A mesma coisa não pode ser dita em relação a outros regimes militares da América Latina.
Tancredo foi sábio o suficiente para agir como Gandhi, Nelson Mandela e a liderança chinesa capitaneada por Deng Hsiao Ping (talvez ainda Gorbachev da União Soviética). Eles conseguiram grandes avanços sem traumas nem violência. Não posso entender aqueles que insistentemente ficam a olhar para trás não sei se em busca de revanche. A grande figura que é Lula pode também, a meu ver, ser incluído naquela turma que acabei de citar. Lula foi prudente e sábio. Chegou ao fim dos dois mandatos e não acho que o preço que tivemos que pagar tenha sido alto.
A década era a dos anos setenta. A vida de Paulo Afonso pulsava no Acampamento Chesf. Lá fora pulsava também. A diferença era que os holofotes estavam cá dentro. Organizaram um festival com a prata da casa. Foi no auditório do CPA (Clube Paulo Afonso). Alguém declamou, outro alguém tocou saxofone, Dr. Fred (que, hoje, adoro vê-lo embriagado com a conversão) tocou piano. Gostei muito. Lamentei mesmo não estar no palco também apresentando algo de valor cultural.
A coisas iam bem. Faltava, porém, algum detalhe. Não sei se o pessoal estava em desconforto com a formalidade; se é que formalidade poderia ser sinônimo de desconforto. Não estava havendo o ritmo apressado de hoje. Tínhamos música no salão. Não era som estridente; muito menos zoada. As pessoas que estavam nas mesas podiam conversar entre si, trocar ideias. Mas devo reconhecer que alguma coisa estava faltando. Já para o fim, a gente via alguns bocejos pelo salão, vi Sílvio, o nosso Silvinho, hoje todo circunspecto na loja da sua mãe na Getúlio Vargas, abordar o Mestre de Cerimônias. Logo verificamos que ele queria cantar. Cantou Diana a plenos pulmões com o acompanhamento mais brilhante que já vi acontecer sem ensaio anterior. Foi um abafo inesperado. O pessoal cantou de pé. Alguns voltaram do portão. "Não te esqueças, meu amor, que quem mais te amou fui eu. Sempre foi o teu calor que minh'alma aqueceu. E num sonho para dois, viveremos a cantar..."
Saudade dos tempos bons. Dormimos bem naquele dia. Não posso deixar de citar o senhor Celso, homem culto que trabalhava na antiga Fazenda Chesf, a observar que o canto do Sílvio foi a melhor atração do recital. Alguns casamentos podem ter saído do CPA mais sedimentados naquela noite. Releia o início da música que citei no parágrafo anterior e - tenho certeza - você vai concordar comigo.
Francisco Nery Júnior