Nasci e cresci no Nordeste, se bem que um nordeste na costa, banhado pelo Oceano Atlântico, com praias bonitas e cheias de água. Nasci um pouco mais para baixo, em Salvador, onde o sol é menos inclemente. Que ele assim o seja sempre. Não passa pelas nossas cabeças mudar o sol. Nasci, já disse, perto do mundo de águas que insistem em nos ligar à África e à Europa de onde vieram os nossos ancestrais ou, se você preferir, os nossos colonizadores ou, ainda, os nossos conquistadores. Os da Europa invadiram o Brasil - que tinha donos então - e os da África foram invadidos Brasil afora para propiciar trabalho escravo enriquecedor da elites.
Temos muita água por aqui também. O Rio São Francisco, domado competentemente para a produção de energía elétrica, não é um mundão de água que cruza, bem pelo meio, toda a Bahia, vindo de Minas, e deságua no oceano? Pois é, temos muita água! Água para todos os usos, para todos os lados; água para propiciar conforto, saúde e desenvolvimento.
Com tanta água, não seria natural que prefeitos e governadores do Nordeste, que agora está sofrendo com "a mais longa seca dos últimos anos", se preocupassem em levar essa mesma água para os sítios, para as roças e para as fazendas dos habitantes da região? Alguma coisa pode ser mais importante do que o nordestino que teima em ficar e se apegar à terra onde nasceu? Teria ele que se deslocar para simplesmente beber água? Como podemos nós tolerar esse absurdo? Absurdo é pouco para nos contentarmos com o que estamos a descrever.
Ah, você que nunca andou por aqui! Ah, você que nunca presenciou o que presenciamos à nossa volta! Ah, você que tem o direito de ser feliz aí onde você está, abastecido de todos os confortos do Brasil sexta economia do mundo! Nós não temos esse direito. Vemos os nossos patrícios, os matutos, tabaréus, berosos, caipiras ou mesmo jagunços, se você preferir assim nomeá-los, a ser preteridos da mais mínima assistência. Eles passam sede, sabia você? Quando bebem, bebem, muitas vezes, um arremedo de água, pouca coisa parecida com H2O. Deus lhes deu o rio. Os homens, aqui representados pelos governantes, têm lhes negado o mais simples sistema de abastecimento. Quase não há adutoras para o nordestino pobre.
De década em década, o tempo vai passando. De década em década, as oportunidades de levar água para os nossos patrícios vão se perdendo. Vamos todos perdendo, pela imposição do ilógico, a oportunidade de sermos felizes; de amar o próximo e vê-lo bem. Até quando, só Deus sabe.