
As Ilhas de Cabo Verde, na costa ocidental da África, foram colonizadas por Portugal. Por isso, falam português. No meio da rua, falam o creoulo, uma mistura de português com dialetos locais. Os caboverdianos são muito receptivos aos brasileiros. Eles mantêm uma certa desconfiança em relação aos portugueses que, segundo eles, ainda se sentem os dominadores dos mares. Os chineses foram os grandes do mundo há séculos. Depois os árabes, na idade média, foram os da ponta. No finalzinho da idade média, os portugueses foram os donos dos mares. Eles são os nossos avós e nós nos sentimos um pouquinho vaidosos também. Mas vamos voltar a Cabo Verde porque os leitores - quero ter certeza - foram bons estudantes de história.
Uma coisa intriga logo de início: o pessoal chega perto da gente quando a gente se reune para os trabalhos nas comunidades distantes. Vêm, sorriem, abraçam e se fazem abraçar. Sorriem a lábios largos. Na nossa zona rural, o pessoal é mais cabreiro. Sente o cheiro primeiro, desconfia. Eles podem estar certos, desconfiando do nosso progresso, da nossa intenção, da nossa mudança. Mas, por outro lado, do nosso lado, não estaríamos nós mantendo, ainda que inconscientemente, uma distância sem razão dos nossos patrícios da zona rural; nós comunidade e nós do poder constituído? Os políticos não estariam indo lá só à cata dos votos? Não estaríamos nós outros nos achando superiores, com dinheiro no bolso sem precisar de ninguém ao nosso redor, muito menos de lá distante? Vamos pensar. Vamos meditar se vale a pena manter um isolamento que se apresenta, logo de saída, ilógico e irracional.
Cabo Verde, África, é o nosso passado. Africanos e portugueses, junto com os índios, são o nosso ser. Somos três em um. O passado de erros políticos ficou para trás. Somos um e somos felizes. Olhando de cá para lá, essa sensação fica mais forte.
Francisco Nery Júnior
Da cidade da Praia, Cabo Verde, África